Homilia - Pro Eligendo de 6/4
Amados irmãos no Senhor,
a Igreja, revestida ainda da luz fulgurante da Ressurreição, reúne-se hoje numa hora de singular gravidade e esperança. Estamos na Oitava da Páscoa — como que num único grande dia, sem ocaso — e, contudo, somos chamados a um momento decisivo: implorar a Deus o dom de um novo Sucessor de Pedro. Não é apenas um ato jurídico ou humano; é, antes, um acontecimento profundamente pascal, enraizado no mistério da vitória de Cristo sobre a morte.
A Palavra de Deus que escutámos ilumina este momento com extraordinária profundidade.
Na primeira leitura, tomada dos Atos dos Apóstolos, vemos São Pedro levantar-se com autoridade no meio do povo. Aquele que outrora negara o Senhor, agora, fortalecido pelo Espírito, proclama com ousadia: “Deus ressuscitou Jesus, libertando-O das dores da morte.” Eis o fundamento da Igreja: não uma ideia, não um projeto humano, mas um acontecimento — Cristo morto e ressuscitado.
E é precisamente este acontecimento que sustenta o ministério petrino. O Papa não é dono da Igreja, mas servo do Ressuscitado; não é origem da verdade, mas sua testemunha; não fala por si, mas em nome d’Aquele que venceu a morte.
No Evangelho segundo Evangelho de São Mateus, encontramos dois movimentos contrastantes: por um lado, as mulheres que, cheias de temor e grande alegria, correm a anunciar a Ressurreição; por outro, aqueles que, endurecidos, difundem a mentira, tentando sufocar a verdade pascal.
Esta tensão atravessa toda a história da Igreja. A verdade da Ressurreição é constantemente anunciada — e constantemente combatida. A Igreja vive entre a luz e a resistência das trevas, entre o anúncio fiel e as tentativas de corrupção da verdade.
É neste contexto que compreendemos melhor o significado do Conclave que hoje se inicia. Ele não é apenas uma escolha entre homens; é, sobretudo, um discernimento espiritual entre a verdade e o erro, entre a fidelidade e o compromisso com o espírito do mundo.
O novo Papa será chamado, à semelhança de Pedro, a confirmar os irmãos na fé (cf. Lc 22,32), a guardar o depósito sagrado da Revelação, a ser sinal visível da unidade da Igreja. Mas, para isso, deverá ser, antes de tudo, um homem pascal: alguém que tenha passado pela cruz e viva da Ressurreição; alguém que não tema as pressões, nem ceda às falsas narrativas; alguém cuja autoridade brote da obediência a Cristo.
Caríssimos, a Igreja não precisa de um gestor, nem de um estratega, nem de um homem de consensos fáceis. Precisa de um pastor segundo o Coração de Cristo: firme na verdade, humilde no serviço, corajoso no testemunho, dócil ao Espírito Santo.
A eleição do Romano Pontífice não é obra de maiorias humanas, mas espaço de ação da graça. Como outrora no Cenáculo, a Igreja encontra-se em oração, perseverante e unânime, aguardando a ação de Deus. E é esta atitude que hoje nos é pedida: rezar, confiar, e entregar.
Talvez sejamos tentados a olhar este momento com categorias puramente humanas: tendências, nomes, expectativas. Mas a liturgia de hoje eleva-nos acima dessas considerações e recorda-nos que é o próprio Cristo quem guia a sua Igreja. Ele, que venceu a morte, não abandona o seu Corpo.
Por isso, não temamos. A Igreja já atravessou tempestades, crises e perseguições. E, no entanto, permanece, porque está fundada sobre a rocha que é Pedro — não pela força do homem, mas pela fidelidade de Deus.
Hoje, ao oferecer este Santo Sacrifício, unamos o nosso coração ao de toda a Igreja e peçamos com insistência: Senhor, dá-nos um Pastor segundo o vosso Coração. Um homem de Deus, um homem da verdade, um homem da Ressurreição.
E, enquanto aguardamos, façamos nossa a alegria das mulheres do Evangelho: corramos também nós a anunciar que Cristo vive. Porque é desta certeza que nasce toda a esperança da Igreja — ontem, hoje e sempre.
Assim seja.
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