Homilia Entronização
**Homilia para a Missa Inaugural do Ministério Petrino**
Queridos irmãos e irmãs em Cristo,
«Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo.» (Mt 16,16)
Estas palavras de Simão Pedro ecoam hoje nesta assembleia com uma força singular. São palavras que nasceram da graça, não da inteligência humana; da ação do Espírito Santo, não da lógica dos homens. E é precisamente sobre esta fé que Cristo continua, ainda hoje, a construir a sua Igreja.
Nesta celebração profundamente comovente, recebo o pálio pastoral e o anel do pescador. Não os recebo como sinais de poder, mas como sinais de serviço; não como uma distinção pessoal, mas como um apelo ainda mais exigente a amar Cristo e a confirmar os meus irmãos na fé.
O pálio recorda-me o Bom Pastor, que coloca aos ombros a ovelha perdida e não descansa enquanto não a conduz novamente ao redil. O anel do pescador lembra-me Pedro, chamado das margens do lago para lançar as redes ao mar da história. Não confiando nas próprias forças, mas apenas na Palavra daquele que disse: «Não tenhas medo.»
Hoje, porém, não podemos ignorar a realidade que nos envolve.
Vivemos um dos períodos mais exigentes da história recente da Igreja. Muitos irmãos afastaram-se. Outros sentem-se desiludidos. Escândalos, divisões, guerras, perseguições, secularização, indiferença religiosa e tantas feridas humanas obscurecem, por vezes, o rosto luminoso da Esposa de Cristo.
Há quem olhe para a Igreja apenas pelas suas fragilidades. Há quem anuncie repetidamente o seu declínio. Há quem pense que o Evangelho perdeu a sua força.
Mas a Palavra de Deus deste domingo convida-nos precisamente ao contrário.
Na primeira leitura, o Senhor declara por meio do profeta Ezequiel:
«Eu mesmo cuidarei das minhas ovelhas.»
É Deus quem fala.
É Deus quem procura.
É Deus quem cura.
É Deus quem fortalece.
Antes de qualquer programa pastoral, antes de qualquer reforma, antes de qualquer estratégia humana, existe esta certeza: a Igreja pertence a Cristo.
Ela não nasceu da vontade dos homens.
Ela não vive da habilidade dos seus pastores.
Ela não permanece de pé por causa das suas estruturas.
A Igreja vive porque o Senhor continua vivo.
E porque o Espírito Santo nunca abandona aquilo que o próprio Cristo adquiriu com o seu Sangue.
É verdade: estamos a atravessar uma noite.
Mas nunca esqueçamos que Deus realiza as suas maiores obras precisamente durante a noite.
Foi na noite que Israel atravessou o Mar Vermelho.
Foi na noite que nasceu o Salvador.
Foi na madrugada, quando tudo parecia perdido, que Cristo ressuscitou.
Também esta noite da Igreja não é sinal de abandono.
É uma hora de purificação.
É uma hora de discernimento.
É uma hora em que somos chamados a escolher novamente Cristo, não por hábito, mas por convicção.
Na segunda leitura, São Pedro dirige-se aos pastores com palavras que hoje ressoam profundamente no meu coração:
«Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado... não como dominadores, mas tornando-vos modelos do rebanho.»
Que programa extraordinário!
O ministério petrino nunca poderá ser um trono.
Terá sempre de ser um joelho dobrado diante de Deus e um coração inclinado diante da humanidade.
O sucessor de Pedro não é chamado a dominar a Igreja.
É chamado a servi-la.
É chamado a guardar a unidade.
É chamado a confirmar os irmãos.
É chamado a recordar incessantemente que Cristo continua a ser o único Senhor da Igreja.
Por isso, neste momento, não peço que caminheis atrás de mim.
Peço-vos que caminhemos juntos atrás de Cristo.
Porque só Ele é o Caminho.
Só Ele é a Verdade.
Só Ele é a Vida.
Ninguém reedifica a Igreja sozinho.
O Papa não o faz sozinho.
Os bispos não o fazem sozinhos.
Os sacerdotes não o fazem sozinhos.
Também os leigos não o fazem isoladamente.
Toda a Igreja é chamada a reconstruir, pedra sobre pedra, aquilo que o pecado tantas vezes tentou destruir.
Precisamos uns dos outros.
Precisamos da oração silenciosa dos contemplativos.
Da dedicação dos missionários.
Da generosidade das famílias.
Da coragem dos jovens.
Da sabedoria dos idosos.
Do testemunho dos consagrados.
Da fidelidade discreta de tantos cristãos que, longe dos holofotes, mantêm viva a chama da fé.
Ninguém é pequeno demais para colaborar na obra de Deus.
Ninguém é inútil na Igreja.
Todos fomos batizados no mesmo Espírito.
Todos recebemos dons diferentes para o mesmo Corpo.
Talvez muitos de nós sintamos hoje o peso do cansaço.
O peso das críticas.
O peso das incompreensões.
O peso das derrotas.
Mas não somos chamados ao desânimo.
Somos chamados à esperança.
A esperança cristã não é um otimismo ingénuo.
É a certeza de que Cristo já venceu.
Mesmo quando tudo parece vacilar.
Mesmo quando o mundo parece esquecer Deus.
Mesmo quando as redes parecem voltar vazias.
O Espírito Santo continua a conduzir a barca de Pedro.
Sempre foi assim.
Foi Ele quem sustentou os Apóstolos perseguidos.
Foi Ele quem inspirou os santos nas épocas mais difíceis.
Foi Ele quem renovou a Igreja em cada século.
E será Ele quem continuará a fazê-lo hoje.
Talvez Deus não nos peça resultados imediatos.
Pede-nos fidelidade.
Pede-nos perseverança.
Pede-nos que não deixemos de lançar as redes.
Pede-nos que nunca deixemos de amar.
No Evangelho ouvimos a promessa de Cristo:
«As portas do inferno não prevalecerão contra ela.»
Esta não é apenas uma bela frase.
É uma promessa divina.
Não significa que a Igreja não sofrerá.
Não significa que não conhecerá crises.
Significa que nenhuma crise será maior do que a fidelidade de Deus.
O futuro da Igreja não está nas mãos do medo.
Está nas mãos do Ressuscitado.
Ao receber hoje o anel do pescador, quero recordar que esse anel representa as mãos calejadas de um homem simples da Galileia, que caiu muitas vezes, que chorou amargamente a sua negação, mas que nunca deixou de confiar na misericórdia do Senhor.
Também nós caímos.
Também nós erramos.
Também nós necessitamos diariamente da misericórdia.
Mas o Senhor nunca deixa de nos levantar.
Queridos irmãos e irmãs,
Não deixemos que nos roubem a esperança.
Não deixemos que o pessimismo tenha a última palavra.
Não deixemos que as divisões enfraqueçam a nossa comunhão.
Este é o tempo de reedificar.
Este é o tempo de reconciliar.
Este é o tempo de evangelizar.
Este é o tempo de voltar ao essencial: Jesus Cristo.
Peço-vos uma única coisa.
Rezai por mim.
Rezai para que nunca procure a minha vontade, mas apenas a vontade de Deus.
Rezai para que nunca tenha medo da verdade.
Rezai para que nunca me falte a humildade de aprender.
Rezai para que, quando chegar o dia de prestar contas diante do Supremo Pastor, possa simplesmente ouvir aquelas palavras que todo o discípulo deseja escutar:
«Servo bom e fiel.»
Confiemos este novo caminho à intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja. Que Ela nos ensine a permanecer firmes junto da Cruz e alegres na esperança da Ressurreição.
E que o Espírito Santo continue a renovar a face da terra, renovando antes de tudo os nossos corações.
Amém.
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